A muda de penas é um processo natural e inevitável, mas poucas etapas do ciclo anual de um pássaro exigem tanta atenção quanto essa.
A troca completa da plumagem demanda energia constante, nutrientes específicos e um ambiente estável.
Mesmo sendo um estágio fisiológico esperado, ele altera o comportamento dos pássaros, interfere no calendário de reprodução, reduz o rendimento nos torneios e pode atrasar todo o planejamento do criador.
Entender o que o organismo faz durante a muda evita desgastes, previne problemas e permite que o pássaro finalize o processo com saúde e boa aparência.
Durante a formação das novas penas, a exigência nutricional aumenta de forma significativa porque as penas são compostas por cerca de 90% de proteína.
Dentro dessa proteína, existem aminoácidos essenciais que determinam a qualidade da plumagem, especialmente os aminoácidos sulfurados (metionina e cisteína) responsáveis pela estrutura da queratina.
Esses aminoácidos garantem que as penas cresçam fortes, alinhadas e com resistência à quebra. Quando estão em baixa quantidade na dieta, o organismo não consegue sustentar a produção adequada, e o pássaro apresenta penas frágeis, opacas e crescimento irregular.
Por isso, a base da muda é sempre nutricional e começa muito antes da primeira pena cair.
A farinhada é um dos alimentos mais importantes desse período porque concentra proteínas e oferece boa digestibilidade.
Quem usa ração extrusada diariamente pode complementar com farinhada para reforçar os aminoácidos essenciais.
Já quem utiliza mistura de sementes precisa ter ainda mais atenção, já que as sementes têm menor concentração proteica e exigem suporte constante.
A proteína de insetos também pode ser incluída durante a muda, já que proporciona digestão rápida e alto valor biológico, ajudando o organismo a acelerar a produção das novas penas.
O ovo cozido é uma alternativa tradicional, desde que usado com moderação, pois oferece aminoácidos completos e é facilmente aceito pela maioria das espécies.
A muda é um processo intenso. É comum ver o pássaro mais quieto, reduzindo o canto e evitando esforços. Isso acontece porque grande parte da energia é desviada para a produção das penas, que são estruturas complexas, com centenas de filamentos e microestruturas que precisam se formar de maneira precisa.
Em condições adequadas, a muda completa dura cerca de 1 mês, mas esse tempo pode variar em espécies diferentes. Quando o processo se prolonga demais, geralmente existe deficiência nutricional, estresse excessivo ou manejo inadequado.
Um dos problemas mais conhecidos é a muda encruada, quando as penas velhas demoram a cair ou as novas crescem de forma incompleta.
Esse quadro costuma surgir com mais frequência em pássaros alimentados com nutrientes insuficientes ou submetidos a mudanças bruscas de rotina, como troca de viveiro, alterações climáticas ou excesso de manuseio.
Nessas situações, o pássaro não encontra estabilidade para direcionar energia à plumagem. Ajustes na alimentação e no ambiente costumam resolver o problema, desde que feitos rapidamente.
Outro ponto que merece atenção é o cisto de penas, que pode aparecer em algumas espécies e tem origem genética em grande parte dos casos. O cisto ocorre quando a pena não consegue atravessar a pele e cresce enrolada internamente.
Espécies como canários estão entre as mais predispostas. Embora o manejo nutricional ajude na qualidade da plumagem, o cisto de penas não está diretamente relacionado à alimentação, e sim à conformação genética da pele e dos folículos.
Quando um cisto aparece, é preciso avaliar o tamanho, a localização e o risco de inflamação. Em casos leves, a pena pode ser retirada com cuidado por um profissional.
Em casos repetitivos, a atenção deve ser redobrada, pois indica predisposição genética e exige manejo especial. Nesse caso, a reprodução do indivíduo não é indicada pois irá passar o problema aos seus filhotes.
Após finalizar a muda, o pássaro ainda precisa de alguns dias de descanso. Esse período costuma ser ignorado por muitos criadores, mas é fundamental.
O organismo acabou de completar uma das fases mais desgastantes do ciclo anual e precisa estabilizar antes de voltar a cantar forte, reproduzir ou participar de torneios.
Quando essa pausa não é respeitada, surge o chamado repasse de muda, que é um retorno inesperado do processo de troca de penas. Ele acontece quando o pássaro ainda está fragilizado e é submetido a estresse, excesso de luz, mudanças de ambiente ou alimentação inadequada.
O repasse desorganiza o calendário, atrasa o ciclo e aumenta o desgaste energético. Quando o pássaro entra em repasse, o criador deve retomar uma dieta rica em proteína de alta qualidade, reduzir estímulos e oferecer um ambiente calmo até que o organismo se estabilize novamente.
O bem-estar também influencia muito a muda. O pássaro pode se coçar com mais frequência, ficar inquieto ou apresentar sensibilidade ao toque.
Um ambiente silencioso, limpo e com temperatura estável ajuda o organismo a trabalhar sem interferências. O enriquecimento ambiental leve também contribui: galhos naturais, ervas seguras e pequenas interações ajudam a reduzir o estresse.
A higiene da gaiola precisa ser rigorosa, já que as penas soltas acumulam poeira e podem favorecer fungos se o local não for limpo com frequência.
A hidratação tem papel essencial nessa fase. As penas novas precisam de água para crescerem bem estruturadas, e o metabolismo também depende dela para eliminar resíduos proteicos.
A água deve estar sempre limpa, renovada diariamente, e os bebedouros precisam ser higienizados para evitar acúmulo de micro-organismos.
A muda é um retrato muito fiel da saúde geral do pássaro. Quando acontece de forma rápida, com penas preenchendo bem os espaços e brilho natural, isso mostra que a dieta está ajustada, que o ambiente é estável e que o manejo está correto.
Mas quando a muda se torna arrastada, irregular ou acompanhada de cistos, falhas ou quedas de energia, isso indica que algo precisa ser revisado.
A alimentação costuma ser o primeiro ponto a ser ajustado, especialmente no que diz respeito à proteína, aos aminoácidos sulfurados e à energia diária disponível.
Um atendimento nutricional especializado ajuda a organizar o calendário alimentar do plantel, considerando torneios, reprodução e períodos de repouso.
Esse atendimento, feito de forma online, facilita para o criador e permite ajustar a dieta com precisão, garantindo que os pássaros tenham suporte para enfrentar cada etapa do ano com saúde e desempenho.
Com um plano adequado, a muda deixa de ser um período problemático e se transforma em uma fase natural, previsível e bem administrada, que fortalece o pássaro e prepara o caminho para o próximo ciclo.

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